Fazia
frio em Goiânia. Ele achou até surpreendente porque o que sabia daquela cidade era
que o calor lá era imenso, só que especialmente naquele dia a temperatura havia
caído muito e isso o fazia bem, trazia lembranças da cidade natal, da sua
Chapecó.
Horas
antes, quando havia saído de Teresina, Dalton sabia que aquele seria um dia
diferente, não entendia porque, só sabia. Percebia que o clima dos seus
companheiros de trabalho era muito bom, todos estavam muito animados,
confiantes. A missão que estava por vir era complicada, mas eles estavam se
acostumando com isso, nos últimos anos o grupo vinha transpondo várias
barreiras, derrotando vários gigantes, não a toa são motivo de orgulho no
Piauí.
Dalton
sempre vibrava com as vitórias do grupo, sentia-se parte daquilo, mas no fundo
faltava algo, queria contribuir mais, queria aparecer um pouco mais, o bem
estar do dia girava em torno desse desejo, e talvez o frio fosse um sinal do
bom agouro.
A
delegação do River do Piauí deixou o hotel ás 18 horas, o jogo estava previsto
para começar ás sete e meia da noite, não contavam que o trânsito na 88
estivesse tão intenso, também acharam que não seria necessária a escolta
policial, tudo isso contribuiu com o atraso, chegaram no Serra Dourada faltando
apenas 30 minutos para a bola rolar. Mas isso não os abalou, a confiança ainda
era visível.
No
vestiário Dalton percebeu que Naylson estava destoando dos demais companheiros,
parecia estar preocupado. Foi ter com ele:
- O
que tens?
-
Não sei, não me sinto bem. Se prepara vai. Preciso muito que pare eles, como eu
parei lá no Albertão. Confio muito em você guerreiro e o Capitão também confia.
-
Como assim? Não vais pro jogo?
-
Hoje é seu dia, honre esse escudo. Vou avisar o Capitão, hoje eu realmente não
tenho condições. Jogue por mim também.
-
Claro que sim!
Dois
minutos depois já estava no gramado fazendo o aquecimento. Sentiu de novo o
frio e com ele veio uma satisfação imensa e o desejo cada vez mais forte de
brilhar. A torcida do Goiás não o abalou, bem verdade que não comparecia em bom
número e ele até não entendia o porque disso, seus amigos Júnior Xuxa e Diego Lira
haviam dito antes que a torcida era imensa.
Resolveu
esquecer aquilo, afinal a bola já ia rolar. E logo aos oito minutos viu o time
brilhar mais uma vez, Eduardo aproveitou uma falha grotesca de Anderson Salles
e tocou por cima de Ivan, o River abria a contagem no Serra. Há tempos não via
um gol de dentro das quatro linhas, a sensação foi indescritível.
Três
minutos depois e a desolação. Dalton não pode parar Raphael Lucas. Depois que a
bola tocou a rede, ele abaixou a cabeça, respirou fundo, mas não se deixou
abater sabia que aquela seria sua noite, o frio gritava isso a quem quisesse
ouvir.
No
intervalo preferiu não falar com os jornalistas, e por um motivo bem simples,
queria falar só no final da noite, quando sentia que seria necessário e
importante falar. Um jovem repórter de óculos e blusão azul até ficou chateado
com a recusa, mas Dalton prometeu a si mesmo que falaria com ele no final.
Retornou
para o gramado, fitou Raphael Lucas antes da bola começar a rolar, sabia que
ele queria bastante estragar sua noite, mas não sentia raiva, cumprimentou o
companheiro de trabalho e foi para sua meta.
Aos
25 minutos viu a bola entrar em seu gol mais uma vez, de novo ele, de novo
Raphael Lucas, pela primeira vez na noite sentiu medo, sentiu insegurança,
pensou que talvez não fosse possível. Bateu um forte vento. Enquanto buscava a
bola no fundo do gol lembrou de Naylson, de Capitão, de Chapecó, e que se dane
o Raphael Lucas.
O
placar de 2 a 1 para o Goiás levava o jogo para os pênaltis, àquela altura
desejava isso, torcia para o tempo passar, sabia que seu 1 metro e noventa e
oito de altura seriam um diferencial. Também queria o fim porque a perna já o
incomodava, tanto que nem cobrava mais os tiros de meta, deixou a
responsabilidade para Tote. O tempo passou, o frio apertou e a hora da decisão
chegou, a partida foi mesmo para as penalidades.
Dalton
viu um a um os jogadores do Goiás acertarem suas cobranças, pelo menos seus
companheiros estavam respondendo na mesma moeda e a partida seguia empatada. Murilo
era o responsável para a quarta cobrança do adversário, depois de ter pulado três
vezes seguidas para o canto esquerdo, resolveu arriscar o direito, não achou a
bola, ela explodiu na trave, na sequencia bateu em suas costas e depois foi pra
fora. Aquilo tinha sido uma defesa? Não tem nem talvez, foi uma defesaça.
Apenas sorriu, olhou para o céu e sorriu de novo.
Contudo
o outro goleiro também ia bem, Ivan defendeu a cobrança de Fabinho e o jogo
seguiu empatado. Mais duas cobranças para cada lado e mais quatro gols. Inclusive
Raphael Lucas fez o dele.
Chegou
a hora da sétima tentativa de defesa, Wagner estava na bola, Dalton não quis
nem saber quem era, engoliu o adversário, uma defesa para ninguém botar
defeito. Agora a classificação estava nos pés de Kássio, Ivan foi lá e
defendeu.
No
momento Dalton percebeu que o goleiro adversário também queria muito a glória
daquela noite, ele também tinha uma história por trás daquele jogo, devia
também estar jogando por alguém, talvez também gostasse do frio, mas esses
pensamentos não o atormentaram, apenas seguiu.
Mais
duas cobranças para cada lado e o filme se repetiu, mais quatro gols. O jogo
era incrível, o placar já marcava 7 a 7 nas penalidades. Patrick foi a
cobrança, ventou forte, Dalton defendeu. Mais uma vez o River se via na mesma
situação, precisava marcar para avançar de fase na Copa do Brasil, mas Ivan
estava ali, também uma muralha, também queria aquela noite. Por que dessa vez seria
diferente?
Pediu
a bola. Dalton foi para cobrança. O frio parou. O estádio explodia em silencio.
Dois segundos, Ivan caiu para um lado, “shhhhláa”. Dalton era o herói daquela
noite, o herói do River, o herói do frio, de Teresina e de Chapecó, Dalton era
Dalton.
-
Parabéns pela vitória, qual foi a sensação?
-
Ah, garoto se eu te contar a sensação você nem acredita, mas pode ter certeza
que eu estou muito feliz. O River merece essa classificação.
Passada
a entrevista o jovem de blusão e óculos virou para o goleiro e disse:
-Também
vibrei muito com a sua vitória e vou me lembrar para sempre desse jogo, será
que poderia me dar sua camisa?
-Claro
que sim!
Quando Dalton estava entregando a camisa o roupeiro do River barrou, disse que não era possível, as camisas estavam poucas, mas Dalton mesmo assim presenteou o repórter com um colete. O jovem foi para casa um pouco frustrado, o goleiro não.
Quando Dalton estava entregando a camisa o roupeiro do River barrou, disse que não era possível, as camisas estavam poucas, mas Dalton mesmo assim presenteou o repórter com um colete. O jovem foi para casa um pouco frustrado, o goleiro não.
Edição de áudio feita por Torcida Piauiense
Áudio: Rádio Antares AM 800
Imagens: globoesporte.com